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Livraria Bertrand: 29 dias, rebentou o limite!

Talvez haja aqui marosca: o cartaz da foto diz que a Livraria Bertrand está a fazer uma "Feira da Leitura" entre 4 e 24 de Maio. Mas o site bertrand.pt diz que a "feira" é entre 8 e 24 de Maio, pelo que vamos ser simpáticos esquecendo o cartaz, e vamos assumir que a "feira" é mesmo só durante 17 dias, como diz o site.

E o que é a "feira"? Descontos até 20% em algumas novidades, portanto enquadrando-se no que a Lei fala de ocasiões especiais.

Ora, como a Livraria Bertrand já tinha programados mais 12 dias de descontos até ao fim do ano, como está neste post, chegamos a 12+17 = 29 dias de ocasiões especiais em 2009. A Bertrand vai rebentar o limite permitido pela Lei, que é de 25 dias!

Até ao final de 2009, a Bertrand não pode voltar a vender novidades com mais de 10% de desconto, ainda que tenha mudado o parlapié dos "20% de desconto à 2ª 2ª feira de cada mês" para "10% de desconto + acumulação de pontos", e as "2ªs 2ªs feiras" de Setembro a Dezembro já serão ilegais!

Amanhã: Bertrand com 20% em todos os livros

Não esquecer: amanhã é a "2.ª 2.ª-feira" (sic) deste mês, e a Bertrand dá 20% de desconto em todos os seus livros. É legal, é de aproveitar. Mais detalhes aqui.

Livraria Bertrand: 20% de desconto

É só para recordar este outro post, porque na 2.ª feira TODOS os livros na Bertrand estarão com 20% de desconto.

FAQ: Novidades acompanhadas de ofertas

Este é o primeiro do que espero venha a ser uma série de posts com respostas a todas as perguntas que chegarem por email ou por twitter ou por comentários aqui no blog. Todas as perguntas serão rigorosamente anonimizadas.

Pergunta: "Boa noite... Então... E se eu tiver um livro X publicado agora-mesmo, do mesmo autor do livro Y de há... dezanove meses. Posso fazer qualquer coisa como «na compra do livro X, desconto de 50% no livro Y»?"

Antes de responder, quero assinalar que o desconto de 50% da pergunta do consulente é uma forma de oferta parcial, que também poderia ser um desconto de 10% ou de 5%, ou até mesmo de 100%, caso em que se trataria de uma oferta total. A minha resposta aplicar-se-á a todos os casos de oferta, seja parcial ou total.

Aqui estão três exemplos reais das livrarias Bertrand, dois deles acabados de tirar do seu site e o outro fotografado numa das lojas, de novidades com oferta total de outro livro à escolha, em acções exclusivas da Bertrand.

Comecemos pela evidência: qualquer oferta parcial ou total de outro produto valoriza o produto-base que está a ser adquirido, caso contrário não valeria a pena estar a fazer a oferta. E valoriza porquê? Porque: ou o cliente vai usufruir da oferta ou, se o cliente não quiser usufruir da oferta, também a valoriza porque pelo menos sabe que ali lhe poderão dar algo mais numa próxima compra, e está a dar valor a essa informação e ao goodwill gerado pelo vendedor.

Se a oferta valoriza o produto combinado mas se o preço pago é inferior ao preço dos dois produtos individuais, é um corolário que o preço pago pode ser repartido pelo produto-base e pelo produto oferecido, efectivamente reduzindo o preço pago pelo produto-base. Só por aqui já deveria ser totalmente proibido fazer quaisquer ofertas com novidades que correspondessem a descontos superiores a 10%, nos termos da Lei (ressalvando as excepções previstas). Mas nem quero ir por este caminho, e assim evito a discussão sobre a repartição pelos dois produtos do preço pago. Por onde prefiro ir é pelo acesso dos retalhistas à oferta, indo assim de encontro ao objectivo da Lei.

O objectivo da Lei do Preço Fixo do Livro é colocar todos os retalhistas em pé de igualdade na venda de novidades. Só assim o consumidor-leitor pode escolher em situação de neutralidade de preço entre uma livraria independente e um hipermercado ou uma cadeia de livrarias. Se uma novidade está a oferecer o que quer que seja em todo o lado, então o consumidor continua a poder escolher a loja que quiser porque produto-base, produto combinado, preço e valor são idênticos em todo o lado.

Portanto, o problema coloca-se em saber se todos os retalhistas têm acesso à oferta porque o editor/distribuidor lhes deu essa possibilidade. Se a oferta não chegou a todos os retalhistas, então há distorção de concorrência no mercado porque produto, preço e valor deixam de ser idênticos em todo o lado; neste caso a Lei não está a ser respeitada, e então temos um problema, IGAC!

É o caso dos três exemplos que servem de ilustração, que têm "ofertas exclusivas". Não pode ser, Bertrand! (Ainda por cima, num dos exemplos, é a própria Bertrand editora que privilegia a Bertrand retalhista, num aproveitamento eticamente reprovável de sinergias de grupo para criar vantagens competitivas contra as restantes livrarias, que têm o azar de ser simultaneamente suas clientes e concorrentes.)

Está esclarecido o meu primeiro consulente? Se quer dar 50% de desconto na não novidade Y pela compra da novidade X, certifique-se de que a oferta parte do editor/distribuidor e que é extensiva a todos os retalhistas. Só assim se evita a distorção da concorrência, só assim não se entra em infracção à Lei.

Livraria Bertrand: 12 dias

Esta imagem foi retirada hoje de www.bertrand.pt, embora remeta para uma página que nada mais explica.

Mas também não é preciso mais explicações, pois não? A mensagem é claríssima: "20% de desconto" é o desconto máximo permitido em ocasiões especiais, "em todos os livros" inclui os livros sujeitos a preço fixo, e "todas as 2ªs 2ªs feiras (sic) do mês" totaliza 12 dias por ano.

Contabilizemos, pois, 12 dias de ocasiões especiais para a alemã Livraria Bertrand (até rima, para não esquecer quem são os donos), dos 25 dias por ano a que tem direito.

No entanto, se bem me lembro de como funciona esta acção, só tenho de agradecer a honestidade, a sinceridade e a transparência da Livraria Bertrand. É que, pelo menos foi assim em 2008, destes 20%, 10% eram descontados imediatamente e 10% eram diferidos em pontos no cartão de fidelidade.

Ou seja, o que outros, sobretudo a Fnac, dissimulam com chico-espertices, a Livraria Bertrand assume: 10%+10% dá 20% e é esse o benefício que é comunicado aos clientes.

Vou repetir, porque isto é mesmo importante: a Livraria Bertrand está a comunicar aos clientes que lhes dá 20% de desconto, ainda que parte do desconto seja diferida.

IGAC, os pontos em cartões contam como descontos adicionais!

É comovedora esta postura da Livraria Bertrand! No entanto, gostaria muito de pensar que esta postura se deve ao pragmatismo da sua personalidade alemã, e não à ingenuidade da sua directora de Marketing, que só está nos livros há um ano. Mas, quem sabe? Vamos ver se a Livraria Bertrand altera a sua comunicação para tentar que estes 12 dias não contem como ocasiões especiais. Eu é que já não vou deixar de os contabilizar, e a IGAC também não devia.